sábado, 8 de setembro de 2018

Ato 2

Antes de nascer a caçula, a família ia para Capital uma vez por mês para fazer uma porção de terapias. Hospedavam-se na casa da avó paterna, a velhinha conhecida como Sossó.
Sossó era uma médica obstetra de renome à época. Era referencia para gravidez de alto risco, muito conhecida por sua ousadia e pela maneira intima, carinhosa e descontraída na lida com suas pacientes.
Bem nascida, de família burguesa de uma capital dos trópicos, Sossó orgulhava-se de nunca ter pegado numa vassoura. Tratava os empregados com a devida distância de uma aristocrata e dizia que os criados eram como os cães, se bem tratados e alimentados, permaneceriam fieis em sua subserviencia.
Sossó estava sempre com um molho de chaves pendurada no meio do sutiã, e andava pela casa fazendo barulho tal qual uma carcereira. Estavam ali as chaves de todos os comodos da casa, mas principalmente a de seu banheiro particulr, a de seu quarto e a da dispensa, que estavam sempre trancados. Quando a cozinheira precisava pegar um alimento no quarto da dipensa, Sossó passava longos minutos tentando encontrar a chave em meio as dificuldades da visão de uma idade avançada, de um corpo cançado.
Mas não se engane com esta primeira imagem de Sossó. A velhinha é muito bem humorada, está sempre rindo e acha tudo bom. À presença de algum nervosinho, Sossó solta uma risada suave e diz duas ou tres palavras que fazem o cara se sentir um tolo por estar naquele estado.
Muito perspicaz, Sossó reconhecia um arquétipo no arriar das malas, e apesar do constante bom humor, é desconfiada por natureza.
É dada aos bordões, do tipo: “quem guarda, tem”, “mantenha simples”, “nada como ser magra!”, e outros que posso me lembrar depois.
Sossó gosta de dizer que é uma jovem senhora. Desde que se aposentou, há doze anos, anda mergulhada em seus livros e não deixa de ler o jornal matinal, aquele de papel mesmo. Dorme duas horas por dia e toda a sua atividade esta voltada para a intelectualidade.
Um tumor nmalignino encontrado em sua cabeça antecipou sua aposentadoria. Quando descoberto, o tumor já ia avançado e os médicos não puderam falsear o diagnóstico diante de uma colega. Para eles a situação era terrivel e ela não sobreviveria por mais de um ano, com ou sem cirurgia. Sossó riu diante dos colegas e dise que eles estavam anganados. E que ela voltaria para provar que eles estavam enganados. Tomou um avião com o filho caçula, e foi para São Paulo, nos melhores hospitais, em busca de alguém que topasse operá-la. Encontrou, no famoso Albert Eistein, um jovem cirurgião que ficou intrigado com sua persistência.
- Veja dra. Solange, a literatura da conta de quea média de sobrevida do tumor cerebral no estágio que está o da senhora é de 1 ano. O caso mais longevo foi de um japonês, 3 anos. Eu não posso enganar a senhora.
- Eu sei meu filho, mas veja, o tumor está num estágio avançado como o senhor diz, mas eu estou inteirinha, não me afetou em nada, então eu digo que se o senhor me operar, eu vou passar esse japinha.
O jovem cirurgião pareceu refletir um instante,
-A senhora é realmente encantadora. Deu a volta na mesa, pegou sua mão e a beijou.
Com um sorriso de vitória, Sossó disse, Obrigada meu filho.
Bem, Sossó fez a cirurgia, deu tudo certo, saiu do hospital e a primeira coisa que fez foi acener o seu cigarrinho. Ela seguiu direitinho o protocolo, fez as quimioterapias, que para ela era como ir a uma excurssão. Sempre que ia a São Paulo levava um dos filhos, para não estar a andar pela rua sozinha. Os anos se passaram, Sossó sobreviveu, esfregou-se com bom humor na cara dos colegas que se recusaram a operá-la. Foi de fato um grande sucesso, também para o jovem cirurgião que a operou, ela finalmente mudou a literatura do caso e deixou japonês para trás.
A parte que não ficou tão evidente é que Sossó parecia estar diferente, com pouca memória, as vezes confusa, despreocupada demias. Como estava agora aposentada, passou a dedicar-se inteiramente aquilo que lhe dava realmente prazer: a leitura. Passaram-se 12 anos e, imersa em seus estudos, quase que ausente qualquer esforço físico, o corpo de Sossó foi fenecendo e hoje parece que é bem mais velha do que seus 67 anos. Cada vez mais caminha com dificuldade e precisa ser guiada na rua para não topar com um poste ou cair ao meio fio.
Uma vez por mês, e durante uma semana Sossó recebia Oto e os pais para cumprir um crono grama de terapias na capital. Era fato que as assistencias normalmente recomendadas para o caso de Oto não poderiam ser encontradas em cidades pequenas, assim que a família, sem ter condições psicológicas de se mudar para a capital, encontrou a solução nas viagens mensais.
A casa de Sossó era meio que um mausoléu, grande, cheia de quartos, uma decoração de péssimo gosto, peças desconexas e descontextualizadas, provavelmente remanescentes de consultórios onde atuava a doutora. Sossó não gostava de plantas e era capaz de matar de sede a um cacto. Tinha um gato que fazia do canteiro externo que dava para toda a lateral da casa no segundo andar, sua caxinha de areia, a qual não era limpa há muitos anos.
A casa era fria e impessoal, e na cozinha habitava um ser, que era quem cuidava da limpeza e alimentação. Dona Amelinha era uma negra velha e gorda, que andava curvada pelo peso do corpo e da idade e por isso fazia tudo com uma certa dificuldade. Falava pouco e nunca expressava opiniões pessoais. Era daquelas pessoas que preferem ficar quietas, até mesmo engolir sapos, em nome da manutenção do emprego. Não que fosse devota ao silêncio, de jeit nenhum. Gostava sim de falar e era até certo ponto expansiva demiais, mas no local de trabalho, retesava sua naturalidade.
Amelinha passava a maior parte do tempo na cozinha, e à porta fechada. A mãe de Otto metia a cara no computador a trabalhar e parecia ausente. O pai ficava pra lá e pra cá, saindo e voltando, com tanta frequencia que nem mais se dava ao trabalho de dizer aonde ia. Que bastasse um “vou ali e já volto”.
Otto ficava a vagar por aquele mausoléu, sempre a tentar fazer coisas que não podia, que incluia quebrar ou sujar coisas. Dona Amelinha era quem estava então pronta para vigiar o menino. Outra coisa que ele passava o dia a fazer era procurar comida. E nestas situações quem também está sempre é Dona Amelinha. Desde pequenino, agarrava em sua canela e dizia: “Abi” Muitas vezes ela interpretou esse sonido como signficando a palavra ‘abre’. Ela imaginava então que ele estava pedindo para abrir a geladeira. Assim o fazia e a ação sempre surtia algum efeito pois Oto ali encontrava algo que o agradasse, como leite, iogurte ou bolo, e ficava tudo certo.
O que Terezinha não sabia era que ‘abi’, para Oto, era uma cacofonia para a palavra ‘amigo’. Desde a tenra infância o garoto era fã do filme Toy Story, cuja musica de abertura tem como refrão a frase: ‘amigo estou aqui’. Otto sempre cantava assim; ‘Abi sutô aqui’. Com seu infinito poder de síntese, a música toda virou esta pequena expressão: ‘abi!’
Quando soube que a palavra sozinha significava a sentença ‘amigo estou aqui’, Terezinha se emocionou, teve um lampejo de esperança pela raça humana e fortificou imensamente o laço afetivo com o garoto.
Desde então, quando Otto sentava na mesa da cozinha, para esperar o almoço ficar pronto enquanto olhava a movimentação da negra velha, ela sentia que estava lhe sendo feita companhia. Passou a prosear com ele e, valendo-se de sua mudez e aparente inocência, contava causos particulares e reclamava da vida.
Ela contou por exemplo que preferia dormir ali naquele quartinho abafado que ficava na área de serviço da casa porque voltar pra casa era muito penoso e tomava muito tempo. O transporte de ônibus chegava a demorar mais de duas horas e era sempre muito sofrido, com pontos lotados e coletivos superlotados.
- Não é que nem sardinha em lata, porque a lata é fresquinha. De manhã o calor já é tanto que agente já fica é assando no forno mesmo, somos sardinhas no forno!
Enquant que dormir ali era Ok para Dona Terezinha, os filhos já estavam grandes e, se antes ela tinha a incumbencia de tomar conta dos netos, agora se desobrigava disso em benefício de um emprego.
Como o feijão do turno não cozinhava nem com reza brava, a criada ia contando:
Eu sempre fui independente, não me apego a ninguém. Ja tive um marido com quem tive um monte de filhos, mas na hora que eu me enchi, peguei minhas trouxas e disse adeus! Desde criança tive que me virar sozinha por essas roças e nunca precisei mesmo de ninguém.
Neste momento, Terezinha entreabriu a porta pra ver se alguém vinha lá. Sentou na mesa de frente para o guri, e num tom mais baixo, em postura de quem cochicha começou a contar sua longínqua história.
Sabe Otto, eu perdi minha mãe muito cedo, tinha 7 anos. Agente morava num sítio, lá pras bandas de Mata Grande, criava galinha, tinha pomar e até um rádio de pilha. Nossa mãe era costureira, muito amorosa, tomava conta de nóis tudo. Nosso pai era pescador e quase não parava em casa., passava a semana toda no mar. Um nossa mãe adoeceu, caiu de cama, e num demoro dela morrer. Éramos 9 filhos. No dia seqguinte, nosso pai se arrumou, se perfumou e se engravatou, e saiu pra enterrar a mãe. Disse que não nos levava porque era muito menino! Ele pegou sua valise saiu por aquele portaõ e nunca mais voltou. Se enterrou a mãe ou não até hoje não sei.
Nós ficamos ali, dias a fio, esperando o pai voltar. Nossa irmã mais nova tinha 3 anos, a mais velha tinha 13. Eu tinha sete anos, eramos 5 meninias e 4 meninos. Rapidinho o que tinha de comida foi acabando. As foia iam caindo, e nada do pai voltar. Os vizinhos, vendo aqueles mininu tudo com fome, as vezes ia levar um pirão, uma bacia de manga madura, um escaldado de agua fria.
Os vizinhos que iam ajudar agente, entravam pelo sitio olhando tudo em volta, sempre passavam por dentro da casa e reparava em tudim. Um dia um vizinho levou pra gente uma bacia grande do caruru que tinha sobrado. Ele viu o rádio, perguntou porque agente não ligava. Meu irmão mais velho respondeu que agente não tava ouvindo porque não tinha mais pilha. O vizinho então falou que ia levar para colocar pilha. Nunca mais vimos o rádio.
Painho tinha uma geladeira a gás. Como o gás acabou e ninguém trocou, outro vizinho achou boa idéia levar pra casa dele, pois geladeira parada sem uso se perde rápido por causa do salitro. No dizer dele, como era perto, ele poderia trazer a geladeira de volta assim que agente trocasse o bujão. O problema foi que ele levou o casco também, e se agente não podia trocar o gás, quem dirá comprar um novo!
Outra vizinha, muito amorosa com todos nós, sempre trazia as sobras do almoço. Ela dizia que fazia sempre um pouquinho mais da conta pro poder trazer pra gente. Ela dava de comer aos menores e colocava a caçula pra dormir no sofá. Ela adorava aquele sofá. Tanto que um dia ela levou o sofá. E assim foi, pouco a pouco, cada prato de comida nos custava um móvel, um lençol, uma almofada, de modo que agente acabou com a casa purinha. Até as telhas da garagem foram tiradas. Não havia mais nada pra levar de nóis. Então as visitas comecaram a dimunir, cada vez cada vez, e chegou uma hora que quase ninguém mais vinha trazer comida pra gente.
Agente tava passando fome de verdade. O cacula morreu ali no meio da gente, porque ele tava comendo o barro do chão. Morreu estoporado. Ele tinha 6 anos!Otto olhou com angústia para Dna Amelinha, não se sabe se por pêsames ou pela demora de cozer do feijão.
Pois é meu filho! Tudo isso eu vivi!
Dona Amelinha respirou fundo e foi olhar o feijão. Ela pegou o alface que escorria na peneira, trouxe para a mesa, sentou-se e começou a organizar a salda na travessa.
Enquanto continuava a história.
A notícia bárbara correu por toda aquelas bandas e o povo da redondeza parece que lembrou da gente. Minha irmã mais velha era quem cuidava de nós. Dava banho, punha pra dormir, dividia as doações, as vezes cozinhava um feijão, acocada na fogueira, passava vassora e gandanhava o sitio.
De certa feita, o vendedor de queijos ficou sabendo da nossa história, e começou a nos trazer comida todos os dias. Ele passava por lá porque ia buscar os queijos nas fazendas de gado que aquelas estradas levavam. Ele era um homem grande, forte, tatuado. Naquela época não era comum a pessoa se tatuar. Todo mundo sabia que ele andava armado. Ele mesmo fazia questão de mostrar, dizia que era pra se defender porque ele andava por muitas estradas desertas.
Na mão daquele homem agente tudo engordou. Ele trazia quentinha pra gente, com carne com feijão com tudo. E também deixava um litro de leite. Ai Deus agente caía matando naquela quentinha. Minha irma não podia nos separar porque estava atendnedo o homem e daí era selvageria geral, aquele bando de mininu faminto disputando uma quentinha!
Dona Amelinha solta uma risada larga, depois silencia e se perde em suas memórias por alguns instantes.
Pra minha irmã ele levava chocolate. Ele gostava muito dela sabe, pelo menos era o que agente achava, porque só ela ganhava chocolate. Ele tinha que entregar o chocolate escondido no quarto, porque não ia dar pra todos. Na época agente não sabia a verdadeira intenção dele, agente não sabia o que acontecia no quarto, agente nem prestava atenção estavamos muito ocupados com a quentinha.
Um dia eu espiei e vi que ele subia em cima dela. Eu passei a espiar e vi, todas as vezes, a mesma cena. A minha irmã…..
...eu também perdi minha inocencia naqueles dias…
Dona Amelinha levantou-se, foi à panela e mecheu no pino, de modo a deixar sair a pressão.
Acontece que não só eu, mas o pessoal de lá começou a desconfiar e o causo rolou de cochicho em cochicho. Daí meio que sujou pro Gil do queijo porque todo mundo já tava comentando.
Um belo dia ele veio e fez sua última visita. Como de costume, trouxe um quentinha, e enquanto nos degladiávamos pela carne, ele levou minha irmã pro quarto pra lhe dar o chocolate. Fez ali sua barbaridade rapidamente e, enquanto abotoava a calça, matutava uma maneira de roubar nossa irmã Gê. Na saída do portão ele se abaixou para Gê e perguntou, você quer ir tomar um sorvete com o tio? Gê fez que sim com a cabeça, ele a pegou no colo, colocou dentro do carro e arrancou. Ela tinha 5 anos e nós nunca mais a vimos. Gil continuava passando por aquela estrada mas não parava mais. Os vizinhos ficaram intrigados com o sumiço da pequena, e se dispuseram a ajudar a procurá-la, mas quando contamos pra eles que foi Gil quem a tinha, mudaram o tom. Ninguem ali sabia nada desse homem, onde morava nem de quem era filho. O povo só sabia que ele passava lá pra buscar queijo e que andava armado. Não apareceu um para conforntar aquele carcamano. Um dia, numa de suas paradas no bar da estrada, ele sempre parava pra tomar uma cachaça, rolou o assunto. Ele esbravejou feitoleão enjaulado, disse que eram mentira dessas crianças. Que ele era um homem honrado e que ele era capaz de atirar na cara de quem ofendesse sua honra. É nisso que dá você querer ajudar os outros! E ficou por isso mesmo.
Dona Amelinha verificava a consistencia do feijão.
Só depois de muitos anos eu vi esse homem, lá na Baixa do Delegado. Eu reconheci ele na hora! Como sou ousada, fui logo perguntar pra ele onde estava minha irmão. Ele me olhou assustado e tentou sair, mas eu, que já era grande e forte, garrei no braço dele.
Ele começou a desembuchar, disse que tinha criado Gê por quase 10 anos. Mas que ela, ingrata como todas as mulheres, fugiu da fazenda. Eu apertei o braço dele com uma raiva! E disse, o senhor deve ter sido muito bom pra ela querer fugir. Ele disse, eu fiz o que pude, eu a sustentei.
Eu disse, seu filho da puta, desculpa Otto, mas foi assim mesmo que eu disse, seu filho da puta, a minha irmã Josileine virou meretriz depois que vosmece fez o que fez com ela.
Com aquela cara de cinico assustado ele disse, eu não tenho culpa, eu fiz o que pude, se não fosse por mim vocês tudo tinha morrido de fome naquela época. Eu não posso ser culpado pelo que Josileine fez depois. Me solta ou vou te mandar prender sua negra gatuna. Disse isso e puxou o braço.
Então no seu dizer eu te devo gratidão!
Toma aqui a minha gratidão. Eu busquei la no fundo da minha garganta uma bola de catarro e cuspi ela na cara daquele disinfeliz.
Amelinha deu uma risada e concluiu sua história. Tem graça, mas eu não consigo rir disso. Depois que ele roubou Gê, a história de Gil com minha irma Jucileine ficou pairando pelo ar. Não demorou muito, a coisa pegou. Outros homens começaram a visitar minha irmã.
A criada se deteve com um pouco de pudor diante de uma criança. Desculpa eu te contar isso assim, mas…..acho que você nem entende isso né!? De primeiro eles traziam comida, depois minha irmã só estava aceitando dinheiro mesmo. Foi assim que ela cuidou de nis por um tempão, nem sei quanto.
Aconteceu que, os sitiantes em volta, começaram a achar aquilo um absurdo, e ficar cochichando e apontando pra nós, e que aquilo não podia continuar.
Vez em quando vinha um dar conselhos a minha irmã, dizendo pra ela parar com isso, que todos ali eram cristãos e que Deus não se agradava daquilo.
E Deus se agrada de ver nós aqui passar fome?
O minha filha, a vida é assim mesmo, agente veio nesse mundo pra sofrer, tem jeito não. Você sabe, nóis aqui tudo é fraco, vai sobrevivendo como dá, e quando agente pode, ajuda os outros. Quando agente pode agente ajuda vocês também não é verdade? Então, não precisa de ocê fazer isso.
Mas dona Coisa, agente não tem o que comer!
Eu sei minha filha, não se preocupe, Deus vai dar um jeito em tudo. E lhe deu um abraço fraterno.
Jucileine claro, achava que o jeito que Deus dava era mandar aqueles homens todos.
Um dia se juntaram e vieram de bando, ameaçando a nós e a minha irmã, que nós tínhamos que ir embora, que ali era lugar de família, de pessoas de Deus, e que nós estavamos entregue ao cão. A dona Dulce, que tinha o sítio mais pra frente um pouco,e que o marido dela já há muito tempo trazia comida pragente, garrou num pedaço de pau e gritou: cobra agente tem que matar é no ninho!
Resultado meu filho é pernas pra que te quero. Saimos correndo ladeira abaixo com a roupa do corpo.
Enquanto colocava o feijão cozido na terrina, Otto esbugalhava os olhos de desejo, via que estava no fim sua aflição.
Agente ficou vagando na rua por meses. Não tínhamos onde dormir. Um dia resolvemos por bem voltar para aquele sítio da Mata Grande. Quando chegamos lá não tinha mais nada. O vizinho do lado esquerdo tinha puxado sua cerca um pouco mais pra cá, o da direita também, e o do fundo também. Cada qual pegou seu quinhão. A casinha de barro tinha sido desmanchada. Seu Geraldo nos viu e nos botou pra correr, saiam daqui seus pivetes não tem mais nada de vocês aqui, ou vou chamar a polícia.
Nós continuamos vagando pela cidade até dar com outros meninos de rua no cais do porto. No meio daquela comunidade de meninos órfãos, sentiamos aquecidos numm seio familiar, por mais estraho que pareça. Ali todos nós caímos na vida, os que sobreviveram.
Jucileine continuou no meretricio e a caçula seguiu os passos dela. Eu não queria isso pra mim. Deus olhou pra mim e eu consegui ir trabalhar numa casa de família, onde fiquei alguns anos. Depois me casei, tive meus filhos.
Aqui dona Amelinha já está a servir o prato do menino, ao mesmo tempo que da uma gargalhada. Eu me sentia forte e poderosa, quando meu marido me azuou, botei ele pra correr e criei meus mininu sozinha. Sempre trabalhando na cozinha dos outros. Nunca dependi de ninguém graças a Deus.
Come meu filho.

 Qué suco?

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