Meca de Los Reyes é
uma antropologa espanhola que vive no Basil há quase uma década.
Após concluir os estudo na Escuela de Estudios Antropológicos de
Salamanca, viajou para o Brasil, pois sabe-se que o país não se
compromete a estudar e preservar remanescente indígenas, um terreno
vasto e inexplorado, um baú de tesouros para um antropólogo.
Antes de ser
antropóloga, Meca se denomina atriz. Tem facilidade pra incorporar
sotaques, gírias e costumes dos locais onde vive. Así que o sotaque
espanhol da jovem antropóloga é quase imperceptível, e é mesmo
capaz de fazer crer ser tão brasileira quanto seu interlocutor.
Meca vive há 5
anos em uma aldeia indígena semi-contactada no norte do Pará.
Poucos antropólogos animaram-se em estudar essa aldeia por ser ela o
fruto de uma mestiçagem entre os indios nativos e alguns
remanescentes dos chamados ‘soldados da borracha’, que por sua
vez eram descendentes dos africanos do nordeste.
Hoje sua gente é
uma mistura exotica entre negros e índios. Por não apresentarem as
características esperadas num sílvicola, como cabelos lisos, olhos
puxados, ausencia de pelos, narizes delicados, os indios Kurukus
ficaram por ultimo na lista de preferencia dos antropologos mais
ativos neste país.
Mas foi exatamente
esta característica que chamou a atenção da nossa heroína. Com a
tez escura, narinas avantajadas e cabelos crespos, embuchados como
rastafaris, Meca achava aqueles índios exóticos demais para serem
desprezados. Chamava atenção também o fato de a aldeia viver em
isolamento voluntário.
Pouco se sabia
sobre os Kurus, que são ‘puros cafusos’, (se é que se pode
falar assim), que todos tem cabelos tipo rastafaris, que não vivem
em aldeias circulares como a maiorira das aldeias brasileiras, mas
sim, em casas espalhadas pela mata, cada qual em clareiras pequenas,
e ligadas por trilhas imperceptíveis vistas de cima. Suas casas não
tem paredes. São caçadores, pescadores e fazem roça. Nunca foram
ao médico. Nos vilarejos ribeirinhos do rio Kaikank, o boato é que
os kurus correm risco de extinção pois há poucas mulheres. Muitos
homens solteiros e poucos nascimentos nos ultimos 20 anos.
Em princípio Meca
não conseguiu entrar diretamente na aldeia pois para isso, como
sabem todos os que transitam por este mundo, seria preciso um convite
de algum pajé ou liderança espiritual da aldeia.
Embuída de um
espírito aventureiro (que diz ter herdado dos pais e da avó) e de
uma autorização da Funai (em parceria com a Escuela de Estudios
Antropologicos da Universidad de Salamanca), Meca montou seu
acampamento do outro lado do rio, que é um limite natural daquelas
terras indigenas. Ficou lá por algumas semanas, na mais absoluta
solidão, sem ver cara de seu ninguém, a não ser de um velho
barqueiro que lhe trazia provisões a cada dez dias e que nada sabia
sobre os kurukus. O barqueiro dizia que eram hostis e não recebiam
bem os brancos.
Ao longo dos dias
pôde notar a frequência de um barco que subia o rio aldeia adentro
e decidiu tocaiá-lo. Ficou na encosta esperando este barco passar na
intenção de interceptá-lo. Uma boa conversa com o caixeiro dos
kurus poderia ser uma maneira de movimentarr as coisas por ali.
Meca acenou para o
barco, que encostou. De dentro saiu um tipo forte, de peito empinado,
moreno cor de jambo e cabelos lisos e semi-longos.
Bom dia dona. Vai
descer?
Meca ficou um pouco
impressionada com a cena, como quem vê um belo principe descendo as
escadarias em câmera lenta.
Depois de recuperar
a razão, Meca entrou a perguntar sobre o transporte e tal, enquanto
tentava encontrar uma maneira de entrar no assunto.
Yago Bragantino, é
na verdade um comerciante, que se utiliza da exclusiva confiança que
desfruta dos kurus para promover relações comerciais entre eles e o
resto do mundo, de maneira, é claro, que todos saiam ganhando.
Yago explicou a
Meca que vem uma vez por mês trazendo encomendas previamente feita
pelos índios, que inclui ferramentas, utensílios de cozinha,
espelhos (ainda eles!), linha pra fazer rede, anzol, munição, essas
coisas. De regresso, carrega consigo produtos das roças e pomares
pra vender, artesanatos e garrafadas de ‘cura milagrosa’, que diz
vender no Ver o Peso a um bom preço, de forma a ser a mairo parte de
sua renda. Yago aproveitou para tentar vender uma dessas garrafadas,
ao que Meca desdenhou, disse que sua história era muito
interessante, mas estava mesmo afim de saber sobre os Kurukus.
Como faço pra
entrar lá? você consegue me apresentar um deles? e que significado
tem esse nome? como eles se misturaram?,o que eles comem? …..eram
peças de um enxoval completo de questões que Meca tentava extrair
do jovem mercador.
Desculpa dona mais
desse jeito não vai dar, eu não sei te responder tudo isso não.
Pra você entrar lá tem que conhecer alguém, mas não são todos
que eu posso te apresentar. Não faço a menor idéia do significado
do nome, eles pescam e fazem roça, tem casa de farinha e pra te
dizer a verdade nunca tinha reparado que são mestiços.
Você não reparou
que são mestiços? Eles são praticamente negros, você costuma
pensar?
Opa opa amiga não
precisa ofender, eu não sei, mas isso também não faz diferença.
São gente, como eu e você. Precisam comer, cagar, dormir e namorar.
Tudo o mais que vocês botarem nome fora disso não faz diferença na
real.
E se não tem nada
de mais, porque você vem aqui então, quis saber a impetuosa
cientista. Venho aqui porque são meus amigos, eu os ajudo e também
faço uma grana pra mim. Não me interessa saber da morte da bezerra.
Esse é meu trabalho, eu na-ve-go. Falando nisso, em que posso te
servir?
E mudando de tom,
passou a oferecer os seus serviços.
Eu tenho um monte de
barco de todos os tamanhos, conheço todos esses igarapés, posso te
levar onde você quiser, estou acostumado a carregar antropólogos.
Meca sorriu!
Cap 3
Então gringa, quer
ir pra algum lugar. Estou de saída, tenho 10 horas rio abaixo.
Quero sim, quero
que você me apresente ao Pajé. Deixa eu ver o que posso fazer pra
você, disse yago enquanto refletia andando. Olha é possível sim,
mas neste caso minha cara, eu terei que passar a noite aqui. Com
você. Disse isso e parou bem na frente de Meca
Neste Caso deixa
pra próxima.
Paraí amiga eu não
mordo não tá. Tava brincando com você. Eu durmo no meu barco, eu
tenho um quarto lá. É pode ser um boa idéia, já está tarde pra
descer o rio não quero chegar de noite. Escuta, tenho um peixe que
ganhei do Rei e agente pode assar ele na fogueira. Amanhã cedo te
apresento ao Toti, e sigo meu rumo. Você, vai preparando sua
listinha de compra que eu volto em duas semanas.
A noite na floresta
é tão densa que não é possível dizer se são nove horas da noite
ou duas da madruga. O silêncio da selva é uma utopia. Dentro da
densa escuridão ecoa a onipresente sinfonia dos bichos de todas as
ordens e todos os decibéis existentes na naturea.
Quando se está na
clareira de uma floresta cujas arvores alcançam 40 metros de altura,
sair de perto da segurança de uma fogueira é um mergulho no buraco
negro, é como flertar com a morte. Meca e Yago conversávam perto da
fogueira, assando aquele peixe pescados pelos Kurukus, e doados a
Yago o mercador de sua confiança. Meca sentiu-se como que adentrando
este longínquo mundo dos indios isolados. Longínquos no espaço e
também no tempo, pois que vivem do mesmo jeito que seus antepassados
remotos.
Quem é Toti,
perguntou a curiosa antropóloga.
Toti é um Pajé.
Não é assim o manda-chuva, mas é muito respeitado e sua opinião
tem peso entre eles. É tipo um velho sábio. Foi o primeiro que eu
conheci também. Ele era o único que ia pra cidade. Ia pra buscar
essas coisas que eu trago. Depois eu conheci ele e passeia fazer esse
trampo. Toti fala bem o português, os outros não falam tão bem.
E com quem
aprenderam? Quis saber a guria. Sei não. E porque você não me
apresenta o Rei? Interpelou Meca. E como você sabe do Rei, quis
saber Yago. Não foi ele quem te deu o peixe? Ah foi! Olhe bem, o Rei
não dá pra te apresentar. E porque não? Indagou a antropóloga.
Porque você não encontra o Rei, ele é que te encontra. Se ele
quiser.
Dito e feito, no dia
seguinte Yago saiu de dentro da cabine do barco antes mesmo do sol.
Chacoalhou a barraca de Meca. Acorda dorminhoca, bora que vou te
levar ao Toti e pegar minha estrada. E precisa ser de noite?
Perguntou ainda que dormisse. Coloca a cabecinha pra fora da barraca
madame, e vai ver o sol nascendo.
Meca ainda
resmungou, mas Yago avisou, Se você quer pegar alguém em casa
nesses igarapés, tem que ser agora. Depois, os caras tudo saem de
casa. Aqui é assim, se você não plantar hoje e não pescar hoje,
hoje você não come. Bora que Toti é o primeiro a se enfiar na
mata.
Por favor, pode
entrar no meu modesto barquinho. Bem vinda à Lenda. Lenda? Que é
Lenda? É o nome da minha barca. Essa danada aqui já passou por
poucas e boas. Todo mundo lá na cidade pode contar um história
dela. Por isso ela se tornou uma lenda!
O barco parecia ser
bem equipado, embora um tanto mal cuidado. Yago teve um pouco de
dificuldade pra ligar o motor, mas disse que é normal isso.
O rio estava calmo.
Nas primeiras horas do dia, nem o vento se atreve a pertubar o
crepusculo harmonioso sobre o espelho d’agua. Era impossivel para
Meca não se embevecer com o espetaculo das aguas refletindo todos os
matizes de cores que há entre a noite e o dia.
Falando em lenda, o
barqueiro que me trouxe aqui diz que o boato é que não tem mulher
na ilha dos kurus, é verdade isso? É mais ou menos verdade sim, não
sei porque, tem muito mais homem do que mulher. As mulheres daí de
dentro já são casadas e ainda ficou um bocado de solteiros.
E devo me
preocupar? Claro que não, os caras são de boa, você vai ver.
Yago parou o barco numa encosta, pouco antes de uma cachoeira desceu e ajudou Meca a descer. Daqui pra cima o barco não sobe mais. Só de canoa.
Subiram por uma trilha que dava num roçado, e continuava por um terreno um tantinho agreste. Yago notou que Meca estava descalça. Sabe moça, se você quiser andar por esses igarapés vai ter que se calçar. A vegetação aqui é um bucado hostil.
Ao que Meca respospondeu, Eu vou ficar bem.
O caminho seguia agreste, de um lado, o manguezal limitava a trilha, do outro, uma vegetação mais parcida com caatinga do que com amazônia. Ao fundo, a floresta erguia-se imponente. E bem ali, pequenina e quase imperceptivel, marcando a divisa entre a capoeira e a mata, uma taperinha de barro, com telhadinho gasto de palha de coqueiro e um foco de fumaça de uma pequena fogueira, denunciava a presença de um ser vivente.
Yago noto, Toti esta aí.
A trilha para casa do caboclo era por meio de uma roça ao melhor estilo agrofloresta. De pronto dava pra ver que tinha Banana, aipim, cacau, abacaxi, laranjas, limoes, tomates, couves, coentros, batatas, acerola, jaca, manga, mamao, maracuja, tudo convivendo harmoniosamente com árvores de grande porte e mato rasteiro. Atrás da grande cabana erguia-se uma mata imponente, com árvores gigantes e de vista impenetrável. Ao se aproximar, Meca viu uma figura sentada a beira do fogo, de costas, o cabelo rastafari tao cumprido que tocava o chão, e ali se enrolava na terra.
Sem se virar, Toti cumprimentou, Qualé inseto, esqueceu o que?
Nada Toti, vim trazer uma pessoa pra você. Qual é o caso? Perguntou Toti sem mover um músculo. Encontrei essa moça acampada em Hans Beck, ela quer conhecer você.
Toti se virou lentamente e levantou-se. Caminhou em direção a ela portando um olhar semi-desconfiado. Chegou ainda mais perto e a farejou. No farejo, Toti arregalou os olhos, num misto de surpresa e desconfinça e a olhou profundamente.
Oi, prazer, Meu nome é Meca. Disse isso e estendeu a mão. Toti apertou e a convidou para sentar na fogueira. O pajé era magro, pele bem escura, não tinha alguns dentes, aparentava mais de 50 anos.
Ao sentar-se de frente para o caminho por onde havia entrado, Meca viu um homem em pé, entre a plantação, que parecia distrair-se com um facão de cabo longo, com o qual podia cortar as ervas daninhas sem curvar-se. O homem também tinha os cabelos longos e embuchados. Era alto magro, de peito largo, a pele um pouco mais clara que a do pajé. Com aquele cabelo cheio, parecia um leão alfa sentado, de peito estufado. Como não o notara na passagem foi a primeia coisa que passou pela cabeça de Meca. Depois ficou um pouco hipnotizada com a cena daquele homem que não parecia se perturbar com nada a sua volta.
Toti agarrou a mão de Meca e disse Não é comum vir fêmea de fora pra cá. O que você quer? Está doente?
Toti é conhecido nos igarapés do rio Kaikang por ser um curador poderoso. Recebe com frequncia pessoas com as mais variadas queixas sobre sua saúde. O tratamente geralmente leva dias, semanas, até meses. Toti usa de suas infusões, oleos e chás ao longo dos dias enquanto, na base da conversa, procura descobrir o que está por tras da queixa, a verdadeira causa do mal que acomete o paciente da vez. Depois de muitos anos servindo à cura psicossomática, Toti carrega a impressão de que o que adoece mulheres e homens é a carencia, o sentimento de posse, no fundo,um desejo reprimido e irrealizado de ser amado, o egoísmoem suma. Quando Toti botou o olho em Meca, imaginou que fosse o caso. Mesmo assim algo o intrigou.
A antropologa gaiata achou que seria uma boa ideia encontrar alguma doença pra ser curada pelo pajé, assim ficaria lá com ele, ou seja, estava dentro da aldeia!
Rapidamente buscou na sua memória todos os pequenos problemas de saúde que pudesse lembrar para queixar-se a Toti.
Dores! Eu sinto muitas dores. Nas costas. Nas costas todas. De cima abaixo.
Então você subiu o rio Kaikang pra curar uam dor nas costas?
Sim, mas não é uma simples dor, é uma dor paralisante, toma conta do meu pensamento. Não consigo nem trabalhar direito.
To entendendo. E você trabalha com que?
Temendo que o pajé pudesse desconfiar de suas reais intenções, Meca omitiu ser Antropóloga. Sou fotógrafa!
Você é de onde? Sou espanhola. É gringa né? Toti sentou novamente à beira do fogo e pegou um pedaço de brasa com a mão, com o qual acendeu seu cigarro. Meca não pode disfarçar a surpresa de ver o rastafari pegando brasa calmamente com as mãos sem se queimar.
De costas, Toti fez um longo silêncio, durante os quais Meca observou mehor o lugar. Primeiro olhou pela trilha e por toda a roça ao redor onde a vista alcançasse mas não encontrou o homem que tinha visto na chegada. Ela passou a observar a cabana. Estavam na parte de baixo de uma cabana alta, de dois andares. O chão era de terra batida, habia uma fogueira no quadrante superior direito. A roça em volta da cabana era tão vistosa que impedia grande parte da luz do sol penetrar. Havia panelas com comida, alguns brinquedos infantis espalhados, frutas e verduras já colhidas por todo canto. Um caxo de bananas pendurado, uma cesta grande com limões, laranjas e mamões. Havia um pé de aipim sobre a mesa ainda melado de terra. Bancões de madeira, uma poltrona grande feita de pneu, duas redes esticadas. Um fogão à lenha que aquecia uma chaleira. Nemo terreo nem o primeiro andar da cabanas eram revestidos com paredes. Quando voltou sua atenção para o momento, deparou-se com aquele homem misterioso, que trazia um cacho com quatro cocos verdes. Abriu os cocos com um facão e distribuiu entre os presentes. Yago lembrou de apresentá-los. Jango, vem conhecer minha amiga Meca. Jango aproximou-se, apertou fortemente a mão de Meca e a penetrou profundamente com o olhar. De um modo que Meca ficasse sem reação. Yago rompia o silencio com amenidades. Yago tentava quebrar o silencio com amenidades mas não teve sucesso. Jango respondia monossilabicamente e da mesma forma como surgiu, desapareceu, sem dizer adeus ou pisar num galho seco
Toti, ainda sentado ao chão, apenas pegou o coco e o encostou ao lado, Continuou fumando seu cigarro. Deu uma tragada, soprou, deu outra, soprou de novo, e mais umas três vezes. Então falou. Você pode ficar aqui comigo por um tempo. Com um pouco de sorte, vamos tirar essa dor de você.
Ao que Meca pensou, Bingo!
*
Bom gente o papo tá bom mas eu tenho que ir. Vejo que vocês já entraram num acordo sendo assim não precisam mais dos meus serviços. Não, espera, minhas coisas no acampamento. Olha amiga, Toti tem uma canoa ele te leva, pode ser Toti? Eu não posso ficar aqui mais um dia.
Tá, eu levo ela lá, pode cair fora inseto. Os dois apertaram as mãos, Yago despediu-se de Meca e pegou a trilha.
Usando um tom de voz suave e hospitaleiro, Toti ofereceu o chá de capim limão que esquentava no fogo. Bebe esse chá, como um apim cozido que tem ali no panelão, e depois nós vamos lá buscar suas coisas.
Nenhum comentário:
Postar um comentário